Citações do Direito - Ultimatum

Ultimatum - é a última chance que se dá de modo intransigente a alguém. Se as consequências da exigência não chegam a atingir o destinatário, temos uma ameaça ou tentativa de extorsão. Ultimatum (português - ultimato) é, em última análise, intimação, exigência definitiva e irrevogável.

Citações do Direito - Ad Acta et Ad hoc

Ad acta - Para os arquivos, arquivados - antigamente, os documentos oficiais já utilizados e que não careciam mais de consultas eram assinalados com anotações a.a. ou ad a (ad dacta), ou seja, depositados em arquivos, arquivados. na pronúncia clássica fala-se como no português e pronuncia-se todas as letras, inclusive o ´´c´´ de acta.

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Ad hoc  - para isto, para este caso - quando eu digo ´´secretário ad hoc´´, significa que a pessoa indicada irá secretariar aquela reunião somente, com fim específico. O mesmo se dá quando um juiz nomeia um ´´advogado ad hoc´´, este advogado estará ali somente para cumprir a função determinada pelo juiz, uma vez acabada a tarefa, cessa o efeito da nomeação. Na pronúncia clássica é [ade Rók] nos tribunais brasileiro usa-se a pronúncia [adók].  

Citações do Direito - Abusus non tollit usum (Cícero)

Abusus non tollit usum - O abuso não tolhe o uso. Máxima do livro Topica (Tópicos) do orador Romano Cícero (Marcus Tullio Cicero - 106-43 a.C.) que argumenta: Usus enin, non abusus legatus est - o uso, portanto, não o abuso, é legal. Ou ainda:  princípio pelo qual se pode usar uma coisa boa em si, mesmo quando os outros usam delas abusivamente. Ou seja, o direito ao uso não é abolido pelo fato de que alguém tenha abusado desse direito. Não posso, por exemplo, crer que, suprimindo o cargo de prefeito eu vá resolver possível caso de corrupção. O abuso configura-se em quem ocupava fisicamente o cargo, mas hei de manter o cargo para alguém, ou eu mesmo, que somente dele faça o correto uso, pois em estados democráticos prefeitos são necessários - de preferência honestos e preparados para o cargo. Em palavras mais simples - não se deve queimar a cama e deixar de dormir, só porque nela se cometeu um adultério, a punição na forma da lei será para os adúlteros.

Vida errabunda, somos os goliardos

Adoramos a boa vida
Monges beberrões inveterados
Pelo Papa amaldiçoados
Ah, nós somos os goliardos
Sim somos alegres bonachões
Os bardos enamorados

Somos soltos pelo mundo
Como o vento que sopra
Na vastidão das campinas
E de nossas bocas é a obra
Que multiplica os hereges
Que as puras moças soçobra

Monges loucos menestréis
Ah, nós somos os goliardos
E aos ricos que aqui passam
Pedimos alguns trocados
Para jarras de bom vinho
E mulheres do pecado

Nesta vida errabunda
Somos monges mendicantes
Os pobres anjos malditos
Por isso temos amantes
Por qualquer feira e lugar
Somos os monges cantantes.
(JFN)
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Errabundus - no português ficaria errabundo - era o nome que se dava na aos errantes vagabundos e vadios (os poetas de taverna inclusos!). Na Idade Média (Século XIII), esses poetas errabundos receberam do Papa a denominação do "goliardos" - uns monges-demônios, simpáticos beberrões, que erravam pela Europa falando mal de quem tinha poder: reis, nobres, juízes e a própria Igreja e destacando o amor terreno e carnal. As Canções de Burana, ou Carmina Burana, são exemplos do que esses monges escreviam e cantavam.
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O Fortuna

Nosso velho, porém atualíssimo, Nicolau Maquiavel deveria ser lido por todo político que tem juízo - coisa talvez rara ou talvez inexistente. Ele dizia que o destino dos homens dependia basicamente de duas coisas: virtu et fortuna (virtude e sorte). Sobre a Fortuna, que também era a denominação da deusa romana que determina a sorte dos homens, temos estes versos de anônimos monges, os goliardos, musicados por Carl Orff, que vão aqui traduzidos do nosso não menos velho latim medieval:

O Fortuna, --- Ó Fortuna,
velut luna --- És como a lua
statu variabilis, --- Mutável,
semper crescis --- Sempre aumentas
aut decrescis; --- Ou diminuis;
vita detestabilis --- A detestável vida
nunc obdurat --- Ora oprime
et tunc curat --- E ora cura
ludo mentis aciem, --- Para brincar com a mente;
egestatem, --- Miséria,
potestatem --- Poder,
dissolvit ut glaciem. --- Ela os funde como gelo.
Sors immanis --- Sorte monstruosa
et inanis, --- E vazia,
rota tu volubilis --- Tu, roda volúvel
status malus, --- És má,
vana salus --- Vã é a felicidade
semper dissolubilis, --- Sempre dissolúvel,
obumbrata --- Nebulosa
et velata --- E velada
michi quoque niteris;--- Também a mim contagias;
nunc per ludum --- Agora por brincadeira
dorsum nudum --- O dorso nu
fero tui sceleris. --- Entrego à tua perversidade.

Sors salutis --- A sorte na saúde
et virtutis --- E virtude
michi nunc contraria --- Agora me é contrária.
est affectus --- Dá
et defectus --- E tira
semper in angaria. --- Mantendo sempre escravizado
hac in hora --- Nesta hora
sine mora --- Sem demora
cordum pulsum tangite; --- Tange a corda vibrante;
quod per sortem --- Porque a sorte
sternit fortem, --- Abate o forte,
mecum omnes plangite! --- Chorai todos comigo!
Ouça "O Fortuna" - abertura e encerramento de "Carmina Burana"

O casamento moderno ainda guarda os ritos do casamento romano


Sinto muito informar aos ateus, mas quase todos os nossos costumes são de origem religiosa. Nossos ritos, muitos já incompreensíveis, pois têm suas formalizações vagando pelos escuros do tempo, nos toma o cotidiano, do nascer à tumba. Assim, se me permitem, dois desses ritos pretendo aqui examinar: o primeiro que vou discorrer hoje, que é o casamento e o segundo, quando tiver tempo, que é o culto aos mortos embutido no nosso moderno Dia dos Finados.

As bodas, ou casamentos, são a base de nossa civilização. Por um fato muito simples, porque é a partir do casamento que se forma a família, e a partir da família uma sociedade. Sei que isso parece ultrapassado, mas é assim que as coisas ainda funcionam em nosso mundo moderno. Se hoje fazemos contratos de casamento em cartórios e perante o Estado, no sentido de dar garantia aos contratantes das regras que devem balizar a união, no passado essas mesmas garantias eram dadas por um contrato com o sagrado, diante das divindades o que, num Estado laico como o nosso, já perdeu o sentido primário.

Sei que parece estranho, mas na Roma antiga, por exemplo, cada família tinha seu próprio deus, o deus Lar, que estava muito ligado ao culto dos antepassados de cada núcleo familiar. Além é claro dos deuses ´´gerais´´ e cultuados pela coletividade toda, como Júpiter, Marte, Minerva, etc. 

O culto ao deus Lar era dirigido pelo pai de família e de forma doméstica, portanto, cada família tinha seu jeito e fórmulas particulares – orações, libações, sacrifícios e canções –  de se relacionar com esse deus também particular. Quando nascia uma menina, ela se submetia ao culto do Lar de sua família que ficava num altar (daí vem a palavra lareira), com o fogo sagrado, em cômodo próprio afastado dos olhares de curiosos.

Ao crescer para se casar, a moça tinha que renunciar ao seu antigo deus Lar e adotar o deus Lar da família do marido numa cerimônia que, pelo menos no aspecto de costumes, é bem parecida com as cerimônias dos casamentos modernos e que perderam quase que totalmente seus significados religiosos.

Tanto na Grécia antiga quanto em Roma, os vestidos de casamento eram brancos, pois a pureza dessa cor combinava com o desejado pelo noivo, uma noiva casta e pura (sei que você está rindo!). 

O casamento romano era muito semelhante ao grego e dividia-se em três atos: na lareira do pai, no transporte da noiva e, por último, na casa do marido (traditio, deductio in domum, confarreatio).

No traditio, a jovem deixa o lar paterno e é liberada pelo pai, numa cerimônia, do culto ao deus de sua casa. No deductio in domum, a moça é levada para a casa do marido. Ela obrigatoriamente estará vestida de branco, com um véu, uma coroa e uma tocha nupcial junto a um cortejo – como hoje, mas sem a igreja, em que a noiva, vestida da mesma maneira, desfila entre os convidados com as daminhas e acompanhada pelo pai, numa alegoria da mudança de casa – notem que os elementos secundários são os mesmos e que somente a tocha nupcial foi substituída pelo buquê de flores, mas mesmo assim o fogo sagrado está presente nas velas do altar. Nesse momento, a música nupcial também se faz presente, porém entoada pelos participantes. Na realidade um hino religioso que, de tão antigo, nem mesmo os contemporâneos de Horácio entendiam o que dizia em seu refrão, assim como as antigas marchas de casamento que ainda usamos nas igrejas, muitas vezes em latim, ou em outras línguas arcaicas. Ainda neste ponto do rito de casamento, o cortejo parava na frente da casa do marido, que tinha que simular um rapto, numa luta também simulada, carregando a noiva no colo sem no entanto deixar que os pés dela tocassem o umbral da casa (deve vir daí o costume das mulheres fazerem regime, imaginou se o sujeito fosse meio fracote e a moça bem nutrida, nada de casamento!).
Por fim, no confarreatio, cerimônia realizada diante da lareira do marido e do deus Lar, imagens dos antepassados, estátuas dos deuses penates, e fogo sagrado, que serão objetos de culto da noiva em sua nova família, os noivos fazem uma libação, sacrifício e comem juntos um doce de flor de farinha (panis farreus) – hoje, o bolo de casamento, indispensável, mesmo que ninguém o toque e o leve a sério quando se tem a perspectiva de outras bebidas e alimentos mais apetitosos – mas a regra diz, que a noiva deve partir o bolo e ceder o primeiro pedaço ao marido. Desse ponto em diante estão casados e a festa segue adiante como em nossos dias, regada a vinho e guloseimas diversas.

Vejam que falo de ritos que remontam há mais de três mil anos e que a troca de alianças só veio mais tarde supostamente com os romanos também, provavelmente mil anos depois do que aqui foi narrado de forma abreviada. 

Disso tudo, podemos deduzir que, o casamento, tanto para os gregos quanto para os romanos, era uma das  coisas mais sérias que poderia existir. Nada para eles se fazia mais temeroso do que desagradar aos deuses. Somente a decadência moral de Roma foi capaz de corromper esse antigo costume, mas mesmo assim, ele sobrevive em nossos dias, embora com significados diversos no que toca a ritualística das novas religiões introduzidas, como a Católica Apostólica Romana. Assim os casamentos duravam anos, porquanto a vida durava pouco. Mas para os descontentes havia o alívio do divórcio, já admitido naqueles tempos, não tão complicado formalmente como hoje, porque era um contrato a ser desfeito com os deuses e também num ritual. Mas daí é outro assunto, que envolve questões do Direito Romano, coisa para mais tarde e que não é o nosso objetivo hoje. (JFN)




NOÇÕES DE ARITMÉTICA ROMANA


Os romanos usavam sete letras maiúsculas do alfabeto para representar os numerais.
Quatro fundamentais: I = 1; X = 10; C = 100; M = 1000
Três intermediárias: V = 5; L = 50; D = 500.
Não usavam símbolo para o zero.
Princípios
Adição: o valor de uma letra colocada à direita de outra de valor igual ou maior, é adicionado ao valor desta.
XXIII = X + X + X + I + I + I = 23
Repetição: somente são repetidas as letras fundamentais e no máximo três vezes.
VIII = 8; CXXX = 130; DCCC = 800; MMM = 3000.
Subtração: o valor de uma letra colocada à esquerda de outra de valor maior, é subtraído do valor desta. Somente se emprega a justaposição subtrativa quando a aditiva não for mais possível.
IV = V – I = 4
XC = C – X = 90
Não se escreve LXXXX, mas sim XC.
Multiplicação: um numeral encimado por um traço horizontal representa milhares, por dois traços representa milhões.
––
IV = 4000
––––
XXI = 21000

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Dicas da semana: ADVÉRBIO

ADVÉRBIO  é toda palavra que modifica a ação que o verbo exprime; o advérbio também modifica um adjetivo ou o próprio advérbio.
OBSERVE:
Menino bom → a palavra bom está modificando a ideia menino, que é um nome ou substantivo. Palavras que modificam substantivos são chamadas de adjetivos.
O orador falou admiravelmente → a ação de falar está sendo modificada por admiravelmente; logo, o verbo é quem está sendo modificado e, portanto, admiravelmente é um advérbio.
Rosas muito brancas → a qualidade (adjetivo) brancas está sendo modificada por muito; logo, muito é um advérbio.
Ele chegou muito cedocedo é um advérbio. Muito modifica esse advérbio; logo, muito é um advérbio também.
Os advérbios são divididos conforme as circunstâncias que indicam: tempo, modo e lugar.
 

Dicas da semana - "o dito cujo"

É fácil verificar que estudantes, e até mesmo escritores, não sabem usar bem os pronomes relativos. Geralmente seus textos aparecem eivados de que. É o caso do esquecido relativo cujo, praticamente em desuso na língua portuguesa por desconhecimento de quem escreve.
Esse pronome nunca liga termos idênticos e indica posse. Exemplos:

Devemos socorrer João, cuja casa se incendiou. (a casa do qual);
A mala, cuja a chave se perdeu, não será usada (a chave da qual);
A parede, cuja pintura estragou, deve ser enfeitada (a pintura da qual).
Logo, o relativo cujo liga sempre termos diferentes, sendo que o antecedente tem a posse do consequente. 
Assim, o cujo tem que:
  1. possuir antecedente diferente do conseqüente;
  2. pode se converter em do qual, da qual, dos quais, das quais;
  3. indicar posse.

São construções corretas, porém em desuso no português: não sei cujo é este livro; Cuja é esta casa? – empregadas normalmente em latim.

Cuidados com emprego de cujo:

  1. Cujo exige preposição quando o verbo pedi-la:
a)      O homem em cuja casa estivemos. (se estivemos, estivemos em);
b)      A moça de cuja casa eu vim. (venho de algum lugar);
c)      A pessoa cuja a casa fui. (fui a).

  1. Cujo não exige preposição quando for em função de VTD:
a)      O homem cujo filho conheço. (conhecer – Verbo Transitivo Direto).
b)      O papel, cujo bordados dobrei (dobrar – VTD).

Dicas da semana - Adjunto adverbial

1. Adjunto adverbial de lugar onde: in com ablativo → estou na cidade → sum in urbe.
2. Adjunto adverbial de lugar para onde: in com acusativo → vou à cidade → eo in urbem.
3. Adjunto adverbial de companhia: cum e ablativo → passeio com amigos → ambulo cum amicis.
4. Adjunto adverbial de tempo quando: ablativo sem preposição → no inverno → hieme; no outono → autumno; ao raiar do dia → prima luce.
5. Adjunto adverbial de instrumento ou meio: ablativo sem preposição → ferir com a espada → ferire gladio.
6. Adjunto adverbial de providência ou origem: ex com ablativo → tirar água da fonte → haurire aquam ex fonte.
7. Adjunto adverbial de causa (agente da passiva): ablativo sem preposição quando for coisa (ser inanimado): morrer de fome interire fame. Quando for ser animado deve se usar ablativo com preposição → serei enviado pelo senado → mittar a senatu.

O português e o latim no “câmpus” de espancamento




José Fernando Nandé

I. Introdução

Há a discussão entre acadêmicos brasileiros que versa sobre o uso das palavras latinas campus, campi. De acordo com alguns autores e, agora, consultores da lusitana língua, esses vocábulos deveriam ser substituídos pela palavra “câmpus” – ou “campus” apenas – tanto no singular quanto no plural. Tal discussão seria no sentido de trazer para o vernáculo uma palavra supostamente derivada das suas correspondentes latinas campus et campi, hodiernamente usadas no Brasil para designar o território, ou espaço, ocupado por instalação ou instalações físicas de universidades.
Este artigo sustenta que tal discussão é inócua, posto que o nome campus de há muito consta incorporado ao nosso idioma e corresponde ao substantivo campo e respectivo plural campos. Portanto, a posteriori deve-se demonstrar que a tentativa em curso de aportuguesamento de tal palavra está mais próxima de uma aberração linguística do que um acréscimo positivo à língua portuguesa e tudo por obra do equivocado e bárbaro marketing dos manuais de redação dos jornais.

II. O significado de campus

O uso do vocábulo campus, em latim, perde-se na noite do tempo. De possível origem grega, ele aparece em vários textos anteriores ao período Clássico inclusive, depois resiste aos períodos subsequentes da língua latina até o amanhecer no idioma português, inculto e belo, sempre com o mesmo sentido original, determinando um lugar, ou território, ou espaço, em perfeito acordo com os significados atribuídos a este verbete desde que ele é registrado pelos dicionários latinos:
Cāmpŭs, is – jardim, vergel, campo. 1º planície, plaino; campina cultivada, campo, veiga, terreno; produto da terra; 2º superfície igual, lisa, plana; 3º território; 4º Campo de Marte (em Roma), exercícios do Campo de Marte, comícios, assembleias do povo, votações, eleições; 5º campo da batalha, campo, liça, luta, contenda, curso, carreira.

Algumas citações clássicas para campus:

1 – Campos et montes peragrare (M. T. Cicero, 106 a.C – 43 a.C). Percorrer as planícies e os montes. [Dictionnaire Français-Latin, p. 143; 1868].
2 – Pingues Asiae campi (Q. Horatius Flaccus, 65 a.C e 8 a.C ). As férteis campinas da Ásia. [CHARLESWORTH, 1970].
3 – Coerulei campi (T. M. Plautus, 230 a.C – 180 a.C). As planícies azuladas (o mar). [Dictionnaire Français-Latin, p. 143; 1868].
4 – Attollitur unda campus (Publius Vergilius Maro, 65 a.C – 8 a.C) A planura (do rochedo) eleva-se acima das ondas. [P. Virgilii Maronis Opera omnia ex editione Heyniana, p. 731, 2V; 1819].
5 – Campus in quo exsultare possit oratio (M. T. Cicero, 106 a.C – 43 a.C). Campo (assunto) em que a eloquência possa desenvolver-se. [Dictionnaire Français-Latin, p. 143; 1868].
6 –Flubius que irrigat Cordoba, qui dicitur Bete, nascitur in campo Spanie et cadit in mare in oceanum ocidentale; currit milia cccxii. (Nominia Flubiorum, autor desconhecido, por volta de 800 d.C). “O rio que irriga Córdova, que se denomina Bétis, nasce num planície da Espanha e cai no mar no oceano ocidental, corre 412 mil passos.” [FURLAN, p. 308. 2006].
Pelo exposto, nota-se que os escritores latinos situavam campus na segunda declinação, pois esta palavra tem seu genitivo em i

III. A declinação de campus e o acusativo como caso lexogênico da língua portuguesa

Caso
Singular
Plural
Nominativo
campus
campi
Vocativo
campe
campi
Genitivo
campi
camporum
Dativo
campo
campis
Ablativo
campo
campis
Acusativo
campum
campos

Para efeito desta exposição e de clareza, citemos o seguinte exemplo tirado à segunda declinação, o nome próprio masculino Candidus, i:

Caso
Singular
Plural
Nominativo
Candidus
Candidi
Vocativo
Candide
Candidi
Genitivo
Candidi
Candidorum
Dativo
Candido
Candidis
Ablativo
Candido
Candidis
Acusativo
Candidum
Candidos

Por último, e para os mesmos efeitos, o nome feminino universitas, atis (3ª declinação):
Caso
Singular
Plural
Nominativo
universitas
universitates
Vocativo
universitas
universitates
Genitivo
universitatis
universitatum
Dativo
universitati
universitatibus
Ablativo
universitate
universitatibus
Acusativo
universitatem
universitates


Devidamente declinadas, é possível verificar que essas palavras chegam ao português por meio do modo latino acusativo. “Cedo o latim vulgar reduziu esse sistema de desinências (morfemas) de seis casos a apenas um. (...) Na Península Ibérica, os nomes se fixaram nas do acusativo (o do objeto direto). Por isso este se diz caso lexogênico do português (e do espanhol)” [FURLAN, 2006; p. 322]. 
Nesse ponto não há divergência entre os gramáticos. O que foi explicado pelo professor Oswaldo Antônio Furlan é praticamente o mesmo que é observado pelo professor Napoleão Mendes de Almeida, em sua Gramática Latina: “O acusativo, que é para o português o caso lexicogênico, isto é, o caso de que provieram os nossos vocábulos, termina geralmente em m no singular das cinco declinações. (...) O acusativo plural das cinco declinações termina em s (Por esse motivo é que o plural das palavras portuguesas termina em s)” [2000, p.89].
Logo, ao se colimar a regra geral tendo como parâmetros os casos particulares, em português Candidus fica Cândido/Cândidos e campus fica campo/campos (segunda declinação). Universitas, universidade/universidades (terceira declinação).
Mas essa explicação ainda não é a bastante, porque são tantas as distorções nesse assunto, que ele tem que ser dilatado para o campo da Filosofia, precisamente ao campo da Lógica. Sabemos que a escrita é o sinal da palavra e, por meio dela, o da ideia. Porquanto se faz mister, para o saneamento de todas as dúvidas, a busca pela ideia representativa da palavra campus. Pelas definições dos dicionários verifica-se que ideia geral para campus é lugar (território), locus ou topus (topos, grego). Em latim e no português, assim como em outras línguas, a ideia geral expressa pela palavra pode ser particularizada, para isso basta que a ela se juntem outros complementos que imprimam à palavra dada uma restrição ou uma qualidade distintiva. Ou seja, o adjunto adnominal restritivo, em português, ou o modo genitivo, em latim.
Assim, podemos dizer que “O pensamento de Cândido” carrega a ideia geral de “pensamento”, que é particularizada pelo complemento “de Cândido”, que não é Pedro nem João. Em latim, sensus Candidi (Candidi sensus) – sensus no nominativo e Candidi no genitivo.
Igualmente, a palavra campo guarda a ideia geral de lugar ou território: universitatis campus, campo da universidade; universitatis campi et universitatum campi, campos da universidade e campos das universidades.
Portanto:
Campus da universidade pode ser aportuguesado tranquilamente: Campo da universidade, ou Campos da universidade; ou pela qualidade, campo universitário ou campos universitários.
É o que aconteceu, no português, por exemplo, nos seguintes casos: Campo de Marte; campo de futebol, campo elétrico, campo magnético, campo de estudos, campo de batalha, campo de ação, campo de equitação, campo de força etc.

IV. Há séculos que a ideia campus está incorporada à língua portuguesa

A discussão terminaria no tópico anterior, caso não fossem as insistências de manuais de redações e acadêmicos, que tentam dar uma nova grafia para esses velhos vocábulos que, por séculos, figuram na língua portuguesa.
Vamos dar um pequeno salto neste estudo até alcançar Luiz Vaz de Camões (1524-1580), que no Século XVI forneceu ao idioma lusitano a sua mais sublime obra, Os Lusíadas, publicado em 1572. Examinem o uso da palavra campo nas seguintes oitavas:

“Da Lua os claros raios rutilavam
Pelas argênteas ondas Neptuninas,
As estrelas os Céus acompanhavam,
Qual campo revestido de boninas;
Os furiosos ventos repousavam
Pelas covas escuras peregrinas;
Porém da armada a gente vigiava,
Como por longo tempo costumava.” (Canto I, 58)

"Este, despois, em campo se apresenta,
Vencedor forte e intrépido, ao possante
Rei de Cambaia e a vista lhe amedrenta
Da fera multidão quadrupedante.
Não menos suas terras mal sustenta
O Hidalcão, do braço triunfante
Que castigando vai Dabul na costa;
Nem lhe escapou Pondá, no sertão posta.” (Canto X, 72).

Notem que, ao mesmo tempo em que campo passa para o domínio da literatura portuguesa e do vulgo letrado ou iletrado, o vocábulo latino de origem, ou seja campus, fica restrito aos círculos acadêmicos, determinando o locus, ou topus, da universidade, ou seja, sua localização física dentro de um espaço específico. Coimbra, a primeira universidade portuguesa (1290), ainda hoje dá o nome campus para o espaço físico ocupado pela totalidade de suas faculdades, que estão agrupadas em polos. Tal fato pode ser explicado, posto que, nos sete séculos de existência de Coimbra, em boa parte deles a língua acadêmica foi o latim, assim como em outras universidades da Europa. Para resumir, por séculos, o latim foi adotado pelas universidades como um sistema linguístico e não como uma língua disponível apenas para o fornecimento esporádico de palavras e expressões avulsas.
A Universidade Toulouse (1229) registra a vida no campus em sua página da internet no informativo “La vie du campus”. Outra universidade francesa, a de Paris (1170), igualmente se utiliza da palavra campus. Em Espanha, não é diferente, as tradicionais universidades de Salamanca (1218) e Valência (1499) se identificam a partir de um campus. Na Itália, a mais antiga universidade do mundo, Bolonha (1088), está identificada sob seu aspecto moderno, além-fronteiras, ao mostrar sua grandiosidade no uso de “multicampus”.
Ora, temos aí a tradição supranacional no uso da palavra latina campus e a prova de que o latim ainda influencia a linguagem acadêmica, mesmo depois de não contar mais com o status de língua oficial das universidades, dos acadêmicos, mestres e doutores, enfim, das ciências. Desconhecemos universidades tradicionais que não tenham ab ovo em seus brasões lemas em latim: Dominus Illuminatio Mea – O Senhor é a minha luz – Oxford University (Reino Unido). Veritas Christo et Ecclesiae – A verdade de Cristo e da Igreja – Harvard University (EUA, 1636). Hic et ubique terrarum – Aqui e em todo o mundo – Universidade de Paris (Universitas magistrorum et scholarium Parisiensis, nome oficial em latim). Scientia et Labor – Ciência e trabalho – Universidade Federal do Paraná (UFPR). Scientia Vinces –Vencerás pela Ciência – Universidade de São Paulo, USP (1934).
Aqui cabe uma observação importante no sentido de desfazer a hipótese de que o vocábulo campus deu um “passeio” pela língua inglesa. De acordo com essa hipótese, Campus teria frequentado as universidades do Reino Unido e da América do Norte e somente depois disso retornaria às línguas portuguesa, galega, francesa, espanhola e italiana para identificar o espaço físico ocupado por uma universidade. Pois bem, isso nos parece improvável ao se considerar uma linha do tempo.
Os falantes da língua inglesa incorporaram a palavra campus ao idioma da mesma forma pela qual ela foi incorporada pelos reinos da Europa continental (sobremodo pelos países que têm sua língua originada no latim, em especial os da Península Ibérica: Portugal e Espanha). O latim foi usado desde a fundação das primeiras universidades – e assim deveria ser – igualmente na Inglaterra e depois nos EUA como língua da ciência desenvolvida nessas instituições. Citemos apenas uma prova disso e será o suficiente: Principia Mathematica, obra máxima do físico, filósofo e matemático Isaac Newton, publicada no ano de 1687, no mais puro latim, quase seis séculos depois da fundação das primeiras universidades.
No Brasil, são tardias as faculdades e universidades: Século XIX, as faculdades de Medicina, Bahia e Rio de Janeiro, em 1808; e no Século XX, a partir da Universidade Federal do Paraná, 1912. Desde o começo, nosso ensino superior seguiu a tradição imposta pela cultura acadêmica europeia, sobremodo a portuguesa (no ensino de Medicina, Direito, Filosofia e Teologia, principalmente). Portanto, ao adotar o modelo europeu de ensino, o latim chega ao Brasil como língua natural das faculdades e universidades, com toda a carga sócio-cultural que isso significava e com a apropriação de uma cultura milenar. Portanto, ao se usar campus et campi, nada mais se faz do que dar continuidade à tradição acadêmica de novecentos anos, não constituindo esse uso uma agressão ao vernáculo nacional, mas deferência à primeira língua utilizada na era cristã para tirar o homem da ignorância.
Entretanto, em artigo, a professora Maria Helena de Moura Neves sustenta:

“Outro dado histórico importante, no caso dessa palavra, é que, embora sua forma seja latina, a fonte da importação foi o inglês, e não o latim, do mesmo modo que ocorreu, por exemplo, com a palavra bônus . O inglês, que não é uma língua latina, frequentemente vai buscar palavras no latim para denominação de coisa novas , e as vai buscar no nominativo, o caso em que a palavra aparece no dicionário, já que se trata de um empréstimo, e não de uma derivação histórica, que tem procedimentos naturalmente instituídos no próprio processo (por exemplo, o caso lexicogênico , para o italiano, foi o nominativo, e, para nós, foi o acusativo).”

Pelo exposto até agora, é evidente que não concordamos com a professora. Mas, para efeito de argumentação, vamos dar razão a essa hipótese de importação para a palavra “campus” do inglês. Verifiquem os seguintes pontos:
Primus: não houve mudança no significado da palavra campus, tanto no latim quanto no português, ela indica lugar, ou território e, no caso, da universidade, ipsis verbis.
Secundus: a palavra universidade é a que foi modificada. Ela é tão antiga quanto campus no latim, mas não com o significado que tem agora, o de universidade propriamente dita. Ela deriva do adjetivo universus, a, um (unus et vertere): todo, toda terra, o mundo inteiro. Universitas, atis é feminina e significa universidade, totalidade, o todo; companhia, corporação, comunidade, colégio, associação, sociedade. Universitas generus humanus – O gênero humano todo (Cícero).
Tertius: campus veio para o português como campo e significando lugar ou território; logo, com esse significado, usa-se sempre no aportuguesamento de campus o seu caso lexogênico, que é o acusativo.
Quartus: caso esta hipótese da “importação” do inglês estivesse correta, vejam que teríamos mais confusões. Pois, “câmpus de futebol” ou “câmpus eletromagnético” poderiam assim ser grafados em nosso idioma, já que essas expressões não existiam em Roma e nos foram apresentadas há menos de dois séculos e aí sim, a partir do inglês: field (pitch); electro-magnetic field. É notável que a situação se nos apresenta ainda mais complicada à medida que descobrimos outros exemplos: concentration camp, refugee camp –  “câmpus de concentração”; “câmpus de refugiados”, seriam expressões possíveis a partir da hipótese da importação de campus do inglês.
 Quintus: Definitivamente, campus da universidade se refere ao espaço ocupado por ela dentro de um território e não somente ao seu mobiliário ou a seus prédios, assim como campo de batalha refere-se ao território próprio para uma contenda e não especificamente ao armamento, soldados etc, que fazem parte do conjunto do teatro de operações bélicas.  Campo de futebol se refere ao território delimitado onde o jogo se pratica e não especificamente aos jogadores, torcedores, vestiários etc.

V. Das comparações impróprias

Novamente poderíamos encerrar este artigo no parágrafo anterior, mas vamos adiante. Respeitosamente, temos que discordar novamente da professora Maria Helena de Moura Neves, que sustenta ao apresentar a grafia “câmpus”:

“Segundo as regras oficiais de acentuação, o acento circunflexo é o sinal necessário para indicar que se trata de palavra paroxítona, já que as palavras portuguesas terminadas em -u (s) não-acentuadas são oxítonas. A partir daí, o plural é câmpus , igual ao singular (como bônus , íctus , vírus).”

A palavra virus pertence à segunda declinação latina e significava originalmente veneno, peçonha, suco, humor, essência, droga ou sêmen, no caso de animais. Hoje, vírus serve para identificar, na Biologia, pequenos agentes infecciosos compostos pelos ácidos nucleicos DNA ou RNA – por essa natureza, os cientistas ainda se debatem na classificação exata do “ente” vírus no Reino Animal ou fora dele. Na Informática, o vírus também é conhecido pelo seu lado “venenoso”, pois é um software malicioso feito para infectar computadores.  



Com efeito, vírus serve para definir tudo isso, mas jamais terá serventia como paradigma na conversão de campus para “câmpus”. Em latim, os muitos nomes terminados em “us” (são femininos na segunda declinação) têm três e somente três exceções como neutros e, ao mesmo tempo, defectivos: virus, pelagus (mar) e vulgus (vulgo). Então, encontramos alguns impeditivos para a comparação entre campus et virus na tentativa de justificar a suposta existência de “câmpus”.
Declinando a pala virus, i:

Caso
Singular
Plural
Nominativo
virus
Não existe
Vocativo
vire
Não existe
Genitivo
viri
Não existe
Dativo
viro
Não existe
Ablativo
viro
Não existe
Acusativo
virum
Não existe
Perguntas:
Prima: em latim, pode um nome (substantivo) neutro ser paradigma de um nome masculino, mesmo que da mesma declinação?
Secunda: o português tem palavras neutras?
Tertia: em latim, pode um nome (substantivo) defectivo, que só existe no singular, ser paradigma de um nome que se flexiona em número?
Quarta: pode um nome que não tem o acusativo plural ser comparado com um nome que possui os dois acusativos e que, portanto, conta com as condições para ser aportuguesado por meio desse caso e de forma direta?
Quinta: pode em lógica a parte ser maior do que o todo e no português e latim, a regra de exceção abranger a regra geral? 
Sexta: é o inglês o idioma que deu origem ao português?

VI. Da “autoridade” linguística dos manuais de redação e jornais

No Brasil, infelizmente, ainda se usa per fas et per nefas o método da autoridade em oposição ao método científico. Assim, ao vulgo, o grito discordante de um redator de jornal, numa tarde de vento, é bastante para uma nova regra dada à língua ou a quaisquer outras coisas. – Socorro! – Desse alarde em diante será apenas uma propagação de erros constantes. E aos entorpecidos pelos juízos ligeiros, tais regras irão fazer o mesmo efeito da luz para os que estão perdidos no talvegue das sombras ou trarão a mesma consequência da fé para os arruinados no umbroso vale da morte.
Mas não se desesperem, porque a Lógica nos socorre no velho silogismo: toda autoridade é humana e o homem é falível; logo, a autoridade, mesmo de grande valor intelectual e de moral inquestionável, pode falhar ao determinar uma verdade doutrinária, caso não se dobre ao método científico, que procede por demonstração e recorre ao processo da evidência intrínseca.
“O mestre o diz”, repetiam os discípulos de Pitágoras ao tentarem provar suas doutrinas e com isso estavam contentes. Grande foi Pitágoras, porém pequeno o método de seus discípulos. Método do “Amém” que, se continuado, conduziria certamente à estagnação da ciência, conferindo a autoridades humanas uma infalibilidade que elas não têm. “O apelo à autoridade só pode intervir, em resumo, para guiar a indagação ou confirmar asserções demonstradas segundo as exigências científicas. Vê-se, assim, que o argumento da autoridade é, conforme a expressão de Santo Tomás, ‘o mais fraco dos argumentos’.” [Jolivet, p. 143; 1969].
Dessa forma, “o mestre o diz”, são elaborados os manuais de redação. Numa penada, os redatores desses manuais simplesmente nos mandam esquecer a anciã língua latina e carpir nossa lusitana língua condenada à morte por maus-tratos diários nas páginas da soberba imprensa.
“Câmpus. Aportuguesando: o câmpus, os câmpus” (sic, Manual de Redação e Estilo do Estado de S. Paulo, p. 118). Assim, ex cathedra, sentado na cadeira de São Pedro, o autor do Manual dá seu veredito, sem mais explicações. É a divina palavra aos sectários da infalibilidade das cartilhas. Na edição disponível na internet, o manual da Folha de São Paulo é mais sintético ainda: “campus (lat.)”, ou seja, a Folha manda simplesmente grafar campus, sem distinção entre sigular, plural e explicação alguma ao que classifica de estrangeirismo.
O pior é que a coisa não termina por aí. A moda dos manuais de redação, movida por apelos de marketing, se espalha pelo Brasil e cada periódico resolve construir a própria gramática. Embora feitas para o consumo interno dos jornais, rádios, TV e internet – repórteres, redatores e editores – essas “gramáticas” tornam-se livros de cabeceira de estudantes que se contentam com o “prato feito” em prejuízo do estudo elaborado, com base na razão e não somente no falar ex professo.

VII – “Câmpus” em vez de campus, uma questão de marketing

Ab initio verificamos que as grafias “câmpus/campus” não se justificam no português e muito menos no latim. Mas, nisso tudo há um fato e pelo menos uma pergunta. Fato: as grafias campus et campi estão sendo alteradas inopinadamente por várias instituições de ensino brasileiras, às vezes por “câmpus” (doutrina do Jornal Estado de S. Paulo) e outras por “campus” (doutrina da Folha de S. Paulo).  Pergunta: qual é a razão de tanto esforço para se escrever fora dos padrões de nossa língua? Para responder vamos recorrer aos jornais, raízes do problema, ao insistirem nessas grafias equivocadas.
Os manuais de redação começam no Brasil como normas de estilo e gramática e, com o decorrer do tempo, passam a ser o lugar de apresentação da postura ética das empresas jornalísticas, bem como dos modos de fazer jornalismo. A preocupação dos jornais, ao produzirem seus manuais, não poderia deixar de ser outra: sua relação com o leitor. Há uma preocupação didática com a audiência. Ela está vinculada a uma das funções centrais do jornalismo: a pedagógica. (VIZEU; CORREIA, 2007).

Ora, se um manual de redação expressa a “preocupação” dos jornais com o leitor – e até onde se sabe é o leitor quem compra os jornais – haverá também “preocupações” do capitalista, o dono do jornal, que se estendem ao mercado e a imagem do produto neste mercado. Como há uma guerra constante dos jornais em busca de leitores-consumidores, o manual de redação, vendido como “apresentação de postura ética da empresa jornalística", passa também a ser um argumento de vendas, ou produto para o marketing empresarial.
Em outras palavras, na guerra de marketing, os jornais usam seus manuais de redação para convencer o leitor (leia-se consumidor) de que em suas páginas está o melhor produto, elaborado com os melhores ingredientes “inteligíveis” para quem tem uma educação mediana e precisa consumir informação de forma rápida, sem pensar muito no significado das palavras, em semânticas e sintaxes. Portanto, à medida que o apelo comercial se intensifica, ao se oferecer facilidades aos leitores, os jornais padronizam a linguagem de acordo com os parâmetros obtidos em pesquisas de mercado, traduzidos pelo “perfil do leitor”.
É outro fato que esse leitor não estudou latim, porque as escolas não ensinam mais latim. Logo, dentro da função central do jornalismo que é a “pedagógica”, usar termos latinos foge totalmente da “didática com a audiência”, pois essa didática pretensamente ética passa pela simplificação da linguagem, mesmo que para isso se tenha que abrir mão de algumas regras e padronizações da língua portuguesa. Em resumo, um texto fácil, mesmo que pobre e defeituoso, atrai leitores, melhora a audiência, e faz vender mais. Esse é o espírito, essa é a miséria.

VIII – Campus em vez de ager, uma questão ideológica

A propósito, já que estudamos o emprego da palavra campo, é bom que se diga que ela também sofre “pressões ideológicas” encampadas pelos jornais quando se refere às coisas próprias da agricultura ou da pecuária. Voltemos ao registro de campus no dicionário, especificamente do registro 4 em diante. Na época de Cícero, a palavra campus, por redução, era praticamente sinônima da expressão Campo de Marte e por extensão, para tudo que podia ser realizado naquele espaço, desde assembleias do povo, que definiam a carreira política de um jovem tribuno, ou até uma luta ou contenda. Hoje, nesses significados, é lógico que o verbete campus está fora de uso. Entretanto, esse processo reducionista apontado para Campo de Marte se repete em nossos dias com a tentativa dos meios de comunicação de transformar campos no sinônimo geral de agricultura, agropecuária e tudo que faz parte desse universo. Para tal, igualam campus ao nome ager, agri – campo, terreno cultivado, o campo e não a cidade – ou ao adjetivo agrarius, a, um – do campo, rural.
Desde o Brasil colônia e até nossos dias, caso se consultem os livros e periódicos correspondentes a este período, verifica-se que a palavra campo sempre guardou seu significado geral de lugar, espaço ou território. Mas ao mesmo tempo, e com intensidade a partir da industrialização e consequente urbanização, ou seja, a partir da República Burguesa – na interpretação de Caio Prado Júnior – as correntes de transmissão do pensamento da nova elite social brasileira passaram a usar e abusar da palavra campo como qualitativa das coisas e pessoas que compõem o espaço agrícola, na tentativa de explicar este Brasil, que assumia suas feições urbanas, em nova realidade, inclusive para aqueles brasileiros inicialmente radicados em ambiente rural.  A revolução burguesa do final do século XIX e início do século XX, que se aproveitava de uma mão-de-obra “vadia” do final do regime servil, também iniciaria assim o processo de redefinição de significados de palavras para explicar o novo statu quo e para mascarar problemas sociais existentes.
Nesse sentido, na década de 1970 o matiz ideológico do “homem do campo” foi cantado e massificado pela dupla sertaneja Dom & Ravel, estigmatizada por suposto apoio à Ditadura Militar:

“Obrigado ao homem do campo
O boiadeiro e o lavrador
O patrão que dirige a fazenda
O irmão que dirige o trator (...)”

É evidente que na música, esse “homem do campo” não tem um perfil específico ou particular, podendo significar latifundiário, pecuarista, pequeno produtor, meeiro, colono, ou trabalhador volante (boia-fria). E de maneira similar, campo também abrange conceito de território rural, porém sem quantificá-lo, podendo ser uma grande fazenda ou latifúndio, um pequeno sítio, uma chácara, ou qualquer ambiente fora das franjas urbanas. Em consequência, produtos do campo surgem como resultado da produção agroindustrial que não questiona o método de produção em todas as suas vertentes: econômica, de saúde, ou de proteção ao meio ambiente:

“Obrigado ao homem do campo
Pelo leite o café e o pão
Deus abençoe os frascos que fazem
O suado cultivo do chão

Obrigado ao homem do campo
Pela carne, o arroz e feijão
Os legumes, verduras e frutas
E as ervas do nosso sertão

Obrigado ao homem do campo
Pela madeira da construção
Pelo cocho de fios das roupas
Que agasalham a nossa nação
Pelo cocho de fios das roupas
Que agasalham a nossa nação (...)”

Essa artificialidade da palavra “campo”, hoje reproduzida pelos meios de comunicação para descrever a realidade do espaço agrícola moderno, pode ser verificada com certa facilidade, pois o campo como ideia das elites urbanas não é o mesmo do ideário de quem vive no ambiente rural. No Brasil, ninguém que sobrevive da terra se identifica como “homem do campo” quando perguntado sobre a ocupação ou profissão que exerce. As respostas necessariamente cairão em produtor agrícola, agricultor, trabalhador rural, patrão, pecuarista, boiadeiro, sitiante, peão, tratorista, braçal, volante, boia-fria etc. De igual maneira, ninguém diz que veio ou vai para o campo. Aqui no Brasil, o bom caboclo diz que veio da roça, da fazenda, da lida, do sítio, dos cafundós, donde Judas perdeu as botas, mas jamais diz que veio do campo.
Observem que, em contrapartida, expressões ligadas aos movimentos sociais e que identificam os trabalhadores como camponês, campesino, campesinato, estão fora do vocabulário da imprensa brasileira.

IX Conclusão

Este artigo se fez mais longo do que o planejado. Ao desenvolvê-lo, percebemos que certos aspectos precisavam ser detalhados para a melhor compreensão dos tópicos. Há de se crer que o escopo principal foi atingido – a demonstração das incongruências dos argumentos de quem defende uma escrita diferente em português para as palavras latinas campus et campi.
Neste trabalho, também consideramos demonstrado que a grafia “câmpus” não se justifica em nossa língua e que campus também não é uma palavra do nosso vernáculo em contraste com o seu equivalente campo, que é o aportuguesamento indicado e correto.
Por outro lado, verificamos que há aspectos históricos que não podem ser desprezados no uso dessa palavra latina para identificar o espaço ocupado pelos prédios e mobiliários das universidades e faculdades. Historicamente, não há equívocos em se usar campus et campi, como não há argumentos históricos convincentes para tais mudanças.
Tecnicamente, nesse estudo não se descobriu um apelo popular, ou da literatura, para a mudança proposta. Os que propõem as novas grafias são os manuais de redação de jornais, sem justificativas que se sustentem na construção da língua. Infelizmente, parte da comunidade acadêmica já encampou a proposta e defende, não sem equívocos, as novas grafias.
Por fim, ao se verificar como o caso é tratado em outros países, gostaríamos de destacar algumas soluções inteligentes para o problema – se é que ele existe no caso brasileiro. A Universidade de Coimbra livrou-se de ter que declinar a palavra latina campus simplesmente adotando esse nome para a totalidade de suas instalações e dando o nome de polo para as subdivisões. Então, o campus da Universidade de Coimbra tem vários polos. Ou ainda, a solução encontrada pela Universidade de Bolonha, ao criar a expressão multicampus, que nada mais é do que um conjunto de campi.  Nessas soluções, há a inteligência de não se espancar as línguas nativas e muito menos o latim.

José Fernando Nandé: é graduado em Comunicação Social – Jornalismo – UFPR, pós-graduado em Economia do Trabalho (UFPR). Tradutor, pesquisador e autor de vários livros.

 Bibliografia

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-----------. Manual de redação e estilo de O Estado de S. Paulo. 3.ed. São Paulo: O Estado de S. Paulo, 1997.
Dicionários
-----------. Dictionnaire latin-français. Paris:  Hachette et Cie, 1868.
-----------. Dicionário Francês-Português e Português-Francês. Rio de Janeiro, MEC, 1965.
-----------. Dicionário Latim-Português e Português-Latim. Porto, Porto Editora, 2006.
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